A facilidade do acesso e o baixo custo das taxas de inscrição nas corridas de rua, tem aumentado o número adeptos à atividade anualmente, sobretudo em São Paulo. A corrida internacional de São Silvestre, considerada a maior corrida da América do Sul, bate recorde de participantes ano após ano, desde sua primeira edição em 1925, com apenas 60 corredores, e já na última edição de 2017, quando contou com a presença de nada menos que 30 mil corredores!

Mas não é só calçar o tênis e sair correndo, antes deve ser realizado exames cardiológicos e sanguíneos a fim de avaliar as condições dos sistemas cardiorrespiratório e cardiovascular. A corrida aumenta o impacto sobre as articulações em até 8 vezes o peso corporal quando comparada à caminhada. Contudo, os efeitos benéficos dos exercícios aeróbios vão desde a redução da obesidade até a prevenção de doenças cardiovasculares e crônicas como hipertensão e diabetes.

A cartilagem hialina, tecido que reveste as articulações, tem a função de absorver e distribuir as cargas aplicadas sobre o corpo.  Tal cartilagem, rica em fibras de colágeno, é composta por células de reparo e de manutenção (condrócitos), é altamente lubrificada pelos proteoglicanos e ácido hialurônico.

 

Não há consenso na literatura científica da relação entre a corrida e o aumento do risco de osteartrose articular – OA (desgaste das articulações) precoce. Da mesma forma não existem evidências científicas que nos corredores recreativos, o estresse mecânico pode danificar a cartilagem, mudando o equilíbrio dos condrócitos a fim de favorecer a atividade catabólica em relação a anabólica, levando à degradação de fibras de colágeno e proteoglicanos.

Contudo, há consenso que, em regra, as causas de lesões em corredores foram evidenciadas nos seguintes casos:

– Excesso de treinamento (overuse);

– Aumento abrupto da intensidade dos treinos;

– Aumento da idade;

– Lesão articular anterior à corrida; e

– Sobrepeso.

Quando o impacto da corrida é transmitida aos membros inferiores, a contração muscular periarticular (ao redor das articulações) ocorre no tempo correto, protegendo a articulação. Todavia, nos corredores de elite ou com fadiga muscular, a sincronização entre o impacto e a resposta muscular podem inibir os reflexos proprioceptivos e prejudicar a estabilidade articular, levando a um maior risco de OA.  Além disso, a rápida aceleração da carga não disponibiliza tempo suficiente para os músculos periarticulares protegerem a articulação e a cartilagem, de forma a absorver a carga, logo, é indicado iniciar a corrida com caminhada ou trote, e só então evoluir para a corrida, tendo em vista que a cartilagem necessita de tempo para a absorção da carga. No mesmo sentido, ao término da corrida, quando o músculo está mais fadigado para receber o impacto, dar aquele sprint final pode ser lesivo para a articulação.

Abaixo listamos as lesões articulares mais frequentes nos corredores, e como o método Pilates pode ser utilizado na melhora do quadro clínico.

  1. Artrose do Quadril ou Coxoartrose – ocorre quando a cartilagem do fêmur e/ou do acetábulo sofre deformidade plástica – degeneração, na evolução da doença ocorre o contato do osso subcondral durante a descarga de peso, causando dor incapacitante. O quadro clínico do paciente é a rigidez matinal, que melhora, progressivamente, com movimentos; dor em torno da articulação do quadril; crepitação (estalidos audíveis) durante os movimentos; dificuldade de sentar em locais mais baixos, a exemplo de entrar e sair do carro e cruzar as pernas. Essa lesão, quando não tratada, pode evoluir para indicação de cirurgia de artroplastia (prótese) de quadril.

O Pilates é um método de exercícios físicos aliado à respiração que se planejado corretamente, estabiliza a articulação do quadril e melhora o sintoma doloroso. Os exercícios são sempre supervisionados por profissionais capacitados e as turmas de no máximo de 3 atendimentos simultâneos. A amplitude de movimento sem queixa de dor é priorizada nas sessões, com ênfase no alinhamento dos membros inferiores e no fortalecimento lombopélvico são linhas de tratamento.

 

2. Condromalácia Patelar ou Síndrome da Dor Patelofemoral – reduz a capacidade de realizar exercício físico e tarefas diárias como descer escada. Estima-se que 16,5% dos atendimentos feitos nas clínicas esportivas são diagnosticados com a dor Patelofemoral. A alteração é caracteriza pelo desgaste da cartilagem articular da patela, a dor referida ocorre com mais frequência na parte anterior ou lateral do joelho, principalmente após descer/subir escadas ou permanecer algum tempo sentado.

O estudo de Passigli S, Capacci P & Volpi E, (2017) relatou o caso de uma corredora, 37 anos, praticante há 15 anos, atualmente corredora recreativa. As estratégias aplicadas ao tratamento, que apresentou melhora no seu quadro clínico, foram divididas em 21 semanas e englobaram:

– Liberação miofascial do glúteo médio.

–  Fortalecimento muscular do quadríceps, glúteo médio e CORE.

– Exercícios de equilíbrio com apoio unipodal evitando o valgo dinâmico.

Após esta intervenção, foi comprovada a melhora do quadro na dor, função e cinesiofobia (medo de se exercitar).  Os exercícios de Pilates proporcionam o equilíbrio neuromuscular, nele os músculos são fortalecidos e alongados de acordo com a avaliação do praticante. Numa mesma sessão é possível fortalecer o corpo todo, respeitando a amplitude articular livre de dor. Se o instrutor for fisioterapeuta habilitado, pode ainda associar ao Pilates técnicas de liberação de trigger points e uso de tapping patelofemoral para diminuição da dor.

 

3. Dor Lombar Crônica é uma das queixas mais frequente que acomete os corredores. A principal causa da dor lombar é mecânica, onde ocorre o déficit na pré ativação de músculos estabilizadores da coluna, principalmente do músculo transverso do abdome (TrA).

O Pilates é recomendado no fortalecimento destes músculos profundos, e a maioria dos estudos publicados nas revistas científicas, comprovam a efetividade do método na melhora da dor e da função muscular. O estudo recente de Cruz-Díaz et al., (2017) avaliou após 12 semanas de tratamento com o Pilates de 98 pacientes, divididos em 3 grupos: Controle (sem intervenção), Pilates equipamentos e Mat Pilates.

Houve a melhora da dor nos dois últimos grupos, contudo no grupo que praticou Pilates nos equipamentos, essa melhora foi mais rápida pela ativação do transverso do abdome, da sua função e no desaparecimento da cinesiofobia.

Outra pesquisa recente de Byrnes, K; Wu, PJ; & Whillier (2018), avaliou se o método Pilates é realmente efetivo na reabilitação de patologias como dor lombar, cervicalgia crônica, escoliose não estrutural dentre outras alterações musculoesqueléticas. Os autores concluíram que o método Pilates foi eficaz para alcançar os resultados desejados, particularmente na melhora da dor e redução da incapacidade.

Após a conclusão dos estudos citados acima, pode-se afirmar que o Pilates é um excelente recurso na melhora da dor causada pelas lesões articulares causados pela corrida, assim como é um método utilizado na prevenção das mesmas, por meio da estabilidade muscular da coluna e dos membros inferiores, melhorando, por fim, a performance nos treinos e evitando a interrupção pela recorrência de lesões.

Érika Batista é fisioterapeuta mestre em reabilitação e coordenadora técnica do FisioStudio Pilates Paraíso.

Referências

Byrnes, Keira; Wu, Ping-Jung; Whillier, Stephney. Is Pilates an effective rehabilitation tool? A systematic review. J Bodyw Mov Ther; 22(1): 192-202, 2018 Jan;

Cruz-Díaz, David; Bergamin, M; Gobbo, S; Martínez-Amat, Antonio; Hita-Contreras, Fidel. Comparative effects of 12 weeks of equipment based and mat Pilates in patients with Chronic Low Back Pain on pain, function and transversus abdominis activation. A randomized controlled trial. Complement Ther Med; 33: 72-77, 2017 Aug;

Ni, Guo-Xin MD, PhD. Development and Prevention of Running-Related Osteoarthritis. Current Sports Medicine Reports: September/October 2016 – Volume 15 – Issue 5 – p 342–349; e

Passigli S, Capacci P, Volpi E. The effects of a multimodal rehabilitation program on pain, kinesiophobia and function in a runner with patellofemoral pain. nt J Sports Phys Ther. 2017 Aug;12(4):670-682.